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Articulista do semanário Sem Fronteiras. Colaboradora do site Aduaneiras.
No último dia 26 de março, o Mercosul comemorou 15 anos de existência sem muito alarde e festejos pelos países integrantes, que inúmeras vezes ameaçaram enterrar de uma vez por todas a união aduaneira e, de certo modo, têm conseguido minar sua credibilidade.
Às voltas de questões espinhosas, como o fracasso do Mercosul, discussões sobre zona de livre comércio e concessões bilaterais, que dificultam ainda mais o avanço do bloco, especialistas brasileiros, argentinos, uruguaios e paraguaios reuniram-se nos dias 27 e 28, em São Paulo, no Memorial da América Latina, para refletir sobre equívocos e acertos.
Foram unânimes em concluir que as individualidades de cada país se sobrepõem aos interesses do bloco. Além disso, avaliaram que Brasil e Argentina dificilmente consultam os outros membros para decidir o que é melhor para os quatro, acabando por impor suas opiniões.
Felix Peña, diretor em Comércio Internacional da Fundação Bank Boston, comentou que a imprensa do mundo inteiro sinaliza que o Mercosul fracassou e sua principal pergunta é: Onde nos equivocamos?
Em seu diagnóstico, quando de sua criação, o Mercosul tinha objetivos grandiosos e houve muitas dificuldades para torná-los reais. Somadas a esse contexto, as regras do jogo eram precárias e davam margem às mudanças. Além disso, a internalização das leis pelos países membros dificilmente se cumpriu ao longo desses 15 anos. “A precariedade das regras do jogo é que mina o Mercosul”, disparou.
Ele avalia que o grande aprendizado é propiciar que quatro países trabalhem juntos, de forma sistemática, embora cada país seja soberano, mas sigam juntos para construir processos econômicos, a fim de competir no mercado internacional.
Também observa que, atualmente, embora se evidencie o desgaste do Mercosul, quando de sua implementação, os países membros passavam por momento de turbulência e foi extremamente importante para o incremento de suas economias. “Ainda que se admitam alguns fracassos, é muito difícil imaginar que o Mercosul deixe de existir. Esta é a boa nova”, afirma Peña.
Na opinião de Fernando Masi, do Centro de Análise e Difusão da Economia Paraguaia, os países se mantêm porque existe uma ganância estratégica econômica de longo prazo. Além disso, há ainda credibilidade do Mercosul para empresários nacionais e estrangeiros que queiram investir.
Para Masi, os objetivos são ambiciosos, mas a capacidade de imprimi-los é limitada, em razão das bilateralidades. “Falta capacidade de definir quando se deve avançar em termos de união aduaneira e também de maior complementaridade produtiva entre os países. Contudo, não há como voltar atrás e renunciar ao Mercosul”, observou.
Para Sérgio Abreu, da Comissão de Assuntos Internacionais da Câmara de Senadores do Uruguai, o contexto de 1991 era completamente diferente de agora e a Rodada Uruguai nem estava concluída. Também não havia a China e era natural a proximidade entre Brasil e Argentina.
Abreu concorda que, às vezes, os interesses setoriais se sobrepõem aos nacionais e do próprio bloco e que o processo de integração começa a perder credibilidade quando, por exemplo, Uruguai e Argentina se confrontam por causa da plataforma de celulose, que trará grande benefício ao primeiro. “Creio ser necessário os quatro países assumirem as simetrias e confrontar as hipocrisias. Vejam que paradoxo: pela primeira vez há um governo de esquerda que recebe uma proposta de acordo dos Estados Unidos porque não temos amigos e interesses permanentes no Mercosul”, alfinetou.
Outra observação importante de Abreu é que não houve qualquer acordo significativo nesses anos, exceto o da Índia. Alertou ainda que não se pode manejar o Mercosul com as variantes da economia argentina e não podemos anexar a Venezuela ao bloco e dar a impressão de que é o Mercosul que se anexou à Venezuela, porque isso será prejudicial para os países membros.
Dante Sica, ex-secretário da União Industrial Argentina e consultor da Abeceb.com, explicou que os países do Mercosul estão perdendo o interesse no bloco e o comércio intrazona diminuiu sensivelmente. Em 1998, 17,4% das exportações brasileiras eram destinadas ao Mercosul, mas, em 2005, não superaram 9,9%. Na Argentina, as vendas para o bloco eram de 16,5% em 1991, subiram para 36,3% em 1997 e, em 2005, não ultrapassaram 19,2%.
Sica acredita que o grande problema está em se aprofundarem cada vez mais as bilateralidades, em vez de trabalhar a agenda com os quatro países. Um bom exemplo é o MAC – Mecanismo de Adaptação Competitiva, entre Brasil e Argentina e as negociações destes com o Chile em separado.
De acordo com Sica, 50% das regras do Mercosul não foram internalizadas e os sócios antepuseram em todo momento seus próprios problemas ao bloco, subestimando os benefícios da integração. “O problema do MAC não são o Brasil e a Argentina, mas a erupção do mercado asiático, que será impossível de controlar com acordos desse tipo”, ressaltou.
Marcos Sawaya Jank, presidente do Icone – Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais, também criticou o câncer da bilateralidade e enfatizou que o bloco tem de se constituir como uma enorme complementaridade para competir com o mundo, especialmente com a Ásia, em setores em que o Mercosul já foi importante (calçados, têxteis e automobilístico) e os asiáticos agora dominam.
Jank diagnostica que a diferença entre Mercosul e Leste Asiático é que a Ásia não tem vontade política e a inserção internacional já aconteceu, enquanto no Mercosul ocorre exatamente o contrário. “A China é um enorme exportador porque é também um grande importador de seus vizinhos”, concluiu.
Fonte: ADUANEIRAS - Informação sem fronteiras.
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